segunda-feira, 19 de março de 2012

Capítulo IV

Alysis

     ''Ela chegou em casa. Aflita. Seus pensamentos confusos diante dos acontecimentos.
     Agira estranhamente, fora confrontada. Quisera ver o passado de Ray e acabara por magoá-lo.
     Por experiência própria, ela sabia que o passado de alguém pode guardar segredos invioláveis ou até desconhecidos.
     Mas agora sabia. Ela não tinha o direito de querer ver o passado dele se ela mesma não abria as portas de sua vida para ele.
     Mas estaria mesmo disposta a mostrar seus segredos à ele?''
     – E preciso parar de escrever sobre mim em terceira pessoa... - disse baixo sem perceber.
     Coloco meu diário, um pequeno caderno de capa vermelha escura, em cima da penteadeira. A janela meio aberta permite que eu veja a Lua. A noite vai aos poucos se estrelando. O vento cada vez mais frio. Encosto a janela, mas mantenho uma pequena abertura para entrada do ar.
     Minha mãe está reclusa no sótão desde o fim da tarde. É assim todos os dias. E ela nunca me deixa me aproximar de lá.
     Ela ter me mostrado como fazer perguntas sugestivas para tentar respostas foi um fator estranho em nossa relação mãe e filha. E tenho cada vez mais medo do que eu posso descobrir usando isso. Claro que não disse tudo para o Ray hoje. Ele não me perdoaria se eu dissesse as coisas que sei dele...
     Tem me passado pela cabeça tentar usar isso em minha mãe. Ela nunca me dá respostas de boa vontade.
     Tudo que posso sei do meu passado foi arrancado com muita persistência de minha parte, e muita raiva da parte dela.
     Resumindo: Meu pai e ela se conheceram em algum lugar não muito bom. Eles se apaixonaram. Depois que eu nasci, eles resolveram fugir, mas alguma coisa aconteceu e meu pai foi embora.
     Ela não diz exatamente o que aconteceu. Nem dá detalhes de nada.
     Vivíamos mudando de estado em estado, parecia fugindo de algo perigoso que vinha sempre ao nosso rastro.
     Então, paramos aqui. Nossa vida deu uma acalmada. Eu fiz amigos. Um bom amigo.
     Mas agora, ele está chateado com minhas atitudes. E a culpa é toda minha.
     Encosto quase toda a janela, uma pequena greta permite a entrada de ar. Deito e tento esquecer tudo o que passou por minha cabeça. Mas é difícil.
     Depois de algum tempo o sono me apanha e enfim caio em um estado anestesiada.

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     Acordo com o sol batendo na janela e lançando reflexos nos meus olhos. O radio-relógio em cima do criado mudo mostra 8:26.
     Levanto e lavo o rosto.
     Dou uma volta na casa e não encontro minha mãe.
     É sábado. Ela deve ter ido à feira.
     Preparo um pequeno café da manhã, sem café mesmo, apenas um pouco de suco.
     Quando estou quase acabando de comer, minha mãe entra pela cozinha. Na mão algumas sacolas que ela coloca em cima da pia. No rosto, uma semblante de espanto.
     – O que aconteceu, mãe?
     – Nada.
     Ela deixa as compras e some. Vai direto para o sótão.
     Pego meus cadernos e os livros e vou terminar os trabalhos escolares.
     A capa do trabalho mostra a data de 20 de novembro de 1993. Uma semana para meu aniversário.
     O trabalho leva a manhã inteira. No almoço minha mãe não aparece.
     Depois de comer algumas besteiras, sento na varanda, olhando para além das montanhas. Na mente a vontade de ligar para Ray e contar a verdade. Fico nessa disputa por algum tempo. Então as coisas mudam.
     Minha mãe vem descendo as escadas, meio curvada, o rosto em penumbra. Alguns gritos vindo com ela.
     A alguns degraus do fim da descida, ela desmaia e cai imóvel no chão.
     Pânico toma meu corpo, pulsa pelas veias em ritmo acelerado. O mundo gira aos meus olhos, até que tudo fica escuro. Me apoio na anteporta de vidro. Ligeiramente escorregando.
     Chego ao chão e então tento me locomover, me arrastando. Tateando as cegas em busca do telefone.
     O mundo volta a ter cor, e consigo tirar o fone do gancho. Meus dedos se locomovem nos números sem nem mesmo ter consciência de que estava digitando.
     Então a voz do outro lado me responde. Uma voz firme e segura.
     – Alysis, é você? O que foi?
     – Eu preciso de ajuda, Ray. É urgente. Minha mãe...
     O tu tu tu se faz presente. Ele desligou o telefone.
     Lágrimas brotam dos meus olhos. E então o tempo parece congelar... fica tudo parado, nem um barulho é recebido aos meus sentidos. Minha pele fica fria...
     Então, também perco a consciência.