quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Capítulo III

     As ruas principais de Meridian são bem movimentadas e em horários de pico fica apinhada. O caminho por que passamos levava a algumas vielas e ruas simples como a rua onde fica minha casa. Ela fica à meia hora de caminhada da escola. A casa, assim como a rua, é simples e não muito grande. Quem disser que é grande estará se deixando levar pela visão de dois andares. Por dentro se tem acesso a dois quartos pequenos no nível superior, o meu nada mais que um sótão um pouco maior que o normal. Na parte de baixo, uma sala e cozinha, separados por uma meia parede, que também serve de bancada.
     Nos fundos, uma pequena área de serviço com acesso vindo da cozinha. Na frente da casa, um pequeno caminho serpenteando em meio a flores de nome Onze Horas. Fiz questão de semeá-las, meu pai sempre diz que minha mãe gostava dessas plantinhas rasteiras.
     Ao canto, uma pequena árvore que no verão lança um pouco de sombra, mas por agora, esta perdendo todas as folhas.
     Passei pelo portão, meio alto, acompanhando a altura do muro, que dá um pouco de privacidade ao jardim.
     Sempre que passo pelo caminho de pedras tenho emoções diferentes. Alguns dias um certo alívio. Alguns tristeza. Hoje era inquietação.
     Passamos pelo caminho e nos aproximamos da casa. Sua pintura cor creme já ia desbotada pela ação do tempo.
     Mesmo com sol à pino, o vento de fim de outono deixava a sensação térmica menor.
     Entramos. Fomos até a cozinha para bebermos água e voltamos para a sala.
     Em todo o caminho, nem uma palavra sobre essa reunião foi pronunciada. Apenas dizeres ocasionais.
     Agora, sentados sobre o tapete formando um triângulo, nos encarávamos.
     Então a risada de Josh quebra todo esse clima.
     – Por que vocês estão levando isso tão à sério? - disse ele entre seus risos.
     Por um instante, pequenos segundos, pensei que ele pudesse ter razão. Então um arrepio eletrizante correu minha pele e me virei para Alysis. Em seu rosto havia um duelo pelo que ela ia dizer.
     No fim, ela preferiu esconder e concordou com Josh.
     – Então, me expliquem o que foi que aconteceu. - Pedi.
     Alyss olhou para Josh, pedindo ajuda.
     – Nem vem, Alysis. - Ele disse e depois me olhou. - Só sei que quando eu cheguei você estava em uma espécie de transe e ela estava tentando fazer uma regressão com você, ou algo do tipo.
     Olhei para Alysis e ela para mim.
     Seus olhos brilhavam, em um pedido mudo de desculpas. Ela provavelmente queria saber se eu estava com raiva dela.
     – Não estou com raiva. - Disse calmamente. - Só me diga a verdade, tudo bem?
     – Sim. - Ela disse e fez uma longa pausa. - Era mais ou menos isso. Você entrou num estágio de tipo um sono mental. Então eu tentei fazer perguntas sugestivas. Mas não consegui. Ai você ficou um pouco agitado e perguntei do que tinha medo. Nessa hora o Josh chegou. Em seguida você respondeu. ''O palhaço me assusta.'' Exatamente com essas palavras. Depois ficou quieto por algum tempo e acordou.
     Houve mais uma rodada de silêncio. Um silêncio incomodo, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas ao toque do vento.
     – Onde você aprendeu a fazer regressões? - Perguntei.
     – Com minha mãe... - Foi tudo, até suas palavras se perderem no ar.
     – E desde quando a tia Mary faz regressões? - Perguntou Josh.
     É assim que a chamamos. Tia Mary. A mãe de Alysis é uma pessoa reservada. Nos trata muito bem, mas evita conversar mais de meia hora. E se antes de ir ela for questionada, levanta e sai sem dizer mais nada.
     Aos 42 anos, possivelmente deve ter levado uma vida saudável e praticado exercícios, pois não perdeu a estrutura de um corpo jovem.
     – Isso eu não sei. - Alysis respondeu. - Ela nunca diz.
     Depois disso começamos o trabalho de história. E não muito depois, eles foram embora.
     Já era próximo das 16h e meu pai ainda não chegara.
     Ao longo desses anos ele sempre foi inconstante. Vivia fases de querer voltar a vida de viagens e eu sempre reagia. Vivemos relativamente bem, devido as circunstâncias. Ele tem um emprego digno que dá para bancar as despesas da casa e o aluguel. E eu faço o que poço para me sustentar. Desde pequenas aulas particulares para alguma criança do bairro, que sempre têm problemas em matemática, à alguns serviços no jornal da escola que nos dava um incentivo monetário por isso.
     Meu pai nunca aceitou que eu ajudasse. Então isso era suficiente para meus tão amados livros. Ele nunca reclamou deles, mas não gostava.
     ''Ele deve ter saído para fazer algum bico aqui por perto.'' - Pensei.
     Subi para meu quarto pensando em Alysis. Seu comportamento estranho, à não muito tempo atrás, na sala. Será que ela já fizera isso comigo antes? Se sim, o que ela poderia descobrir?
     Abri a porta e entrei. Meu quarto-sótão estava bagunçado. Foi estranho ter aquela visão. Eu não o deixo assim. Meus livros jogados sobre a cama, alguns no chão. De repente, em toda aquela confusão, não vejo o porta retrato com a foto de minha mãe. Arrumo tudo as pressas e comprovo. A foto não estava lá. Saio e vou até o quarto do meu pai. Estava, tecnicamente, arrumado. E em cima do lençol estivado, estava o porta retrato. Corri até ele e a foto não estava. Era a única foto que sobrevivera ao tempo e as mudanças. Principalmente depois que roubei-a e me propus a guardá-la.
     Eu não tinha outra cosia a fazer, senão esperar ele voltar.
     Voltei ao meu quarto e me afundei na cama, querendo esquecer o dia.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Capítulo II

      O sinal tocou e me tirou dos devaneios. Josh já estava conosco, e eu não lembro de como ele chegou ali. Havia se passado quanto tempo? Dez, quinze minutos, absorto em meus pensamentos?
      – E ele levanta! A torcida vai à loucura! Ray! Ray! Ray! - Alysis entoou, imitando uma orla empolgada de torcedores.
      Algo que não me acostumei ainda é com Alysis ser fanática por luta. Ela gosta de judo e outras semelhantes, mas é louca por boxe. Ela assiste as lutas imitando os golpes: um jab, um direto, outro cruzado. Não me pergunte como posso denominar esses golpes.
      O que me surpreende por ela gostar de boxe não é o fato dela ser uma garota, não alimento esses preconceitos, mas é porque ela não gosta de se colocar em brigas, e porque , sendo ela magra e um pouco mais alta que a média, é difícil a imaginar ganhando das garotas encrenqueiras.
      – O que aconteceu? - Perguntei curiosamente. Tentando esconder o fato de já saber o que havia ocorrido.
      – Ah, o de sempre. Sual alma foi passear no passado e seu corpo ficou no presente. - Respondeu Josh de modo casual.
      – E por que você acha isso? - Perguntei incrédulo. Ele não podia saber disso só de me olhar.
      – Sei disso, - ele colocou peso nessas palavras querendo mostrar que ele tinha certeza do que falava. - Sei porque você estava dizendo que tinha medo do palhaço quando cheguei aqui.
      Eu devo ter feito uma cara de muito espanto e ceticismo, porque Alysis tentou explicar o que tinha acontecido. Só que tínhamos acabado de entrar na sala e o professor também, poucos passos atrás de nós. Então fizemos um acordo com os olhos de conversarmos depois da aula e, somente, depois da aula, de modo que ficasse tudo explicado.
      Seria aula de história. Ou talvez seria outra tediosa aula de história.
      – Abram o livro na página 127. Vamos continuar a falar sobre conflitos importantes e hoje começaremos a tratar da ''Guerra dos Cem Anos''. - O Professor Richard foi dizendo enquanto escrevia no quadro negro.
      O professor Richard é uma boa pessoa. Apesar de ser professor de história, ele também pensa no futuro. Ele é alto, está com uns 40 anos e tem um cabelo curto arrepiado. E é agitado.
      – Alguém saberia me dizer entre quem foi essa guerra?
      – Inglaterra e França. - A voz de uma garita veio da primeira linha de carteiras.
      – Muito bem, Madge. E quanto tempo durou? Alguém sabe?
      – Cem anos, claro. - Respondeu um dos idiotas do fundão.
      – Muito esperta sua dedução, Thiago. Mas está errada. - Ele disse, ainda escrevendo no quadro.
      – 116 anos. - Falei sem perceber.
      – Disse algo, Raymond.
      – Na..Não, senhor.
      Ele me olhou com certo ar de dúvida.
      – Ele disse: 116 anos, professor. - Alysis me entregou.
      Ela estava sentada na carteira ao lado e ainda me cutucou com o ombro e sorriu. Então fez sinal afirmativo com a cabeça.
      O professor se virou, pela primeira vez que entrou na sala, para ver onde estávamos.
      – Sim, está certo. Foram 116 anos de guerra.
      Então ele se virou e acabou de escrever o texto e ainda passou uma pesquisa à ser feita. Por todo o tempo em que esteve voltado para sala, eu senti o peso de seus olhos sobre mim. E isso começou a me preocupar. Era possível isso só porque eu respondi certo a sua pergunta? Não parecia provável.
      O resto das aulas passou distorcido. Aula de geografia, o intervalo, sala de estudos, língua estrangeira e por fim matemática, no último período.
      Como previsto, ele passou um teste de recuperação, mas é sabido que esses testes são mais difíceis que os normais. Então, mesmo dando uma chance de reabilitação , ele ainda é odiado.
      Como não estava com ânimo para ser espancado hoje, aproveitamos a boa vontade do professor por ter nos dispensado mais cedo e fomos para casa.
      Foi nesse caminho para casa que vi cartazes avulsos pelas ruas principais. Na estranheza da manhã, acabei esquecendo o verdadeiro motivo para ela.
      Nesse momento eu soube. Eu odeio Circos. E sempre vou odiar.