domingo, 12 de fevereiro de 2012

Capítulo II

      O sinal tocou e me tirou dos devaneios. Josh já estava conosco, e eu não lembro de como ele chegou ali. Havia se passado quanto tempo? Dez, quinze minutos, absorto em meus pensamentos?
      – E ele levanta! A torcida vai à loucura! Ray! Ray! Ray! - Alysis entoou, imitando uma orla empolgada de torcedores.
      Algo que não me acostumei ainda é com Alysis ser fanática por luta. Ela gosta de judo e outras semelhantes, mas é louca por boxe. Ela assiste as lutas imitando os golpes: um jab, um direto, outro cruzado. Não me pergunte como posso denominar esses golpes.
      O que me surpreende por ela gostar de boxe não é o fato dela ser uma garota, não alimento esses preconceitos, mas é porque ela não gosta de se colocar em brigas, e porque , sendo ela magra e um pouco mais alta que a média, é difícil a imaginar ganhando das garotas encrenqueiras.
      – O que aconteceu? - Perguntei curiosamente. Tentando esconder o fato de já saber o que havia ocorrido.
      – Ah, o de sempre. Sual alma foi passear no passado e seu corpo ficou no presente. - Respondeu Josh de modo casual.
      – E por que você acha isso? - Perguntei incrédulo. Ele não podia saber disso só de me olhar.
      – Sei disso, - ele colocou peso nessas palavras querendo mostrar que ele tinha certeza do que falava. - Sei porque você estava dizendo que tinha medo do palhaço quando cheguei aqui.
      Eu devo ter feito uma cara de muito espanto e ceticismo, porque Alysis tentou explicar o que tinha acontecido. Só que tínhamos acabado de entrar na sala e o professor também, poucos passos atrás de nós. Então fizemos um acordo com os olhos de conversarmos depois da aula e, somente, depois da aula, de modo que ficasse tudo explicado.
      Seria aula de história. Ou talvez seria outra tediosa aula de história.
      – Abram o livro na página 127. Vamos continuar a falar sobre conflitos importantes e hoje começaremos a tratar da ''Guerra dos Cem Anos''. - O Professor Richard foi dizendo enquanto escrevia no quadro negro.
      O professor Richard é uma boa pessoa. Apesar de ser professor de história, ele também pensa no futuro. Ele é alto, está com uns 40 anos e tem um cabelo curto arrepiado. E é agitado.
      – Alguém saberia me dizer entre quem foi essa guerra?
      – Inglaterra e França. - A voz de uma garita veio da primeira linha de carteiras.
      – Muito bem, Madge. E quanto tempo durou? Alguém sabe?
      – Cem anos, claro. - Respondeu um dos idiotas do fundão.
      – Muito esperta sua dedução, Thiago. Mas está errada. - Ele disse, ainda escrevendo no quadro.
      – 116 anos. - Falei sem perceber.
      – Disse algo, Raymond.
      – Na..Não, senhor.
      Ele me olhou com certo ar de dúvida.
      – Ele disse: 116 anos, professor. - Alysis me entregou.
      Ela estava sentada na carteira ao lado e ainda me cutucou com o ombro e sorriu. Então fez sinal afirmativo com a cabeça.
      O professor se virou, pela primeira vez que entrou na sala, para ver onde estávamos.
      – Sim, está certo. Foram 116 anos de guerra.
      Então ele se virou e acabou de escrever o texto e ainda passou uma pesquisa à ser feita. Por todo o tempo em que esteve voltado para sala, eu senti o peso de seus olhos sobre mim. E isso começou a me preocupar. Era possível isso só porque eu respondi certo a sua pergunta? Não parecia provável.
      O resto das aulas passou distorcido. Aula de geografia, o intervalo, sala de estudos, língua estrangeira e por fim matemática, no último período.
      Como previsto, ele passou um teste de recuperação, mas é sabido que esses testes são mais difíceis que os normais. Então, mesmo dando uma chance de reabilitação , ele ainda é odiado.
      Como não estava com ânimo para ser espancado hoje, aproveitamos a boa vontade do professor por ter nos dispensado mais cedo e fomos para casa.
      Foi nesse caminho para casa que vi cartazes avulsos pelas ruas principais. Na estranheza da manhã, acabei esquecendo o verdadeiro motivo para ela.
      Nesse momento eu soube. Eu odeio Circos. E sempre vou odiar.

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