domingo, 22 de janeiro de 2012

Capítulo I

  Isso aconteceu em um tempo onde não foi possível reter muitas memórias...
     Tudo o que eu sei é fruto do que meu pai me contou, um pouco de minha lembranças e uma parte considerável, que preenche as lacunas, de imaginação...

     Eu tinha apenas cinco anos. Nesse tempo minha mãe ainda estava entre nós, e vivíamos em um lugar distante.
     Minha mente diz que foi um inverno de muito vento e de longos dias de chuva... Meu pai não desmente isso, então tomo como real.
     Naquele dia não choveu... e fez um lindo sol, propiciando grande alegria na cidade e, também, a chegada do circo.
     Minhas lembranças são da felicidade que tive, principalmente ao ver os animais.
     E isso é tudo que tenho de certo e claro... o resto é apenas um caleidoscópio de imagens distorcidas...
     Meu pai me contou a versão fatídica...
     ''Naquele dia, sua mãe e eu, o levamos ao circo pela primeira vez. Você adorava os animais e os algodões doces... - Ele parou, como se estivesse revendo as imagens de um filme rodando no projetor. - Sua mãe queria te mostrar os palhaços, mas você ficou apavorado quando viu um de longe, então ela te levou a tenda dos animais mais uma vez, para você se acalmar. O grande show ia começar e então nos encaminhamos para a grande tenda central. O show deles não foi dos melhores... - algo se prendeu em sua garganta, e eu esperei em silêncio – Tudo estava normal, até a hora de sairmos. Ocorreu um grande tumulto e então sua mãe se perdeu... - lágrimas começavam a saltar de seus olhos castanhos escuros – e não mais a vimos...''
     Ele me contou isso quando eu tinha treze anos. Ele disse que era hora de seguirmos em frente. Não entendi o porque desse comentário. Mas é certo que paramos em uma cidade e ficamos por lá.
     Nossa vida era sempre mudar, mudar e mudar... e ir ao circo. Sempre imaginei que era o único lugar onde meu pai poderia lembrar de minha mãe em seu ponto mais feliz.
     Um dia me cansei disso e fui questioná-lo. E ele só disse que não conseguia ficar em um lugar por muito tempo.
     Mas meu pai viu que não estava me fazendo bem a longa jornada de mudanças, e que eu estava me afastando muito dele. Então depois de rodar o país inteiro nos instauramos aqui em Meridian, Mississipi. Enfim as coisas começaram a se firmar...

--------------------------------------------------------------------------------

     Meu nome é Raymond, e hoje tenho 17 anos. Meus amigos me chamam de Ray, e quem não é meu amigo as vezes me chama de idiota, ou de nerd na hora que precisam.
     Eu moro a quatro anos em Meridian, junto com o meu pai, – depressivo e incoerente – Thomas. Tenho um e oitenta e dois de altura e cabelo preto, um pouco grande, com o qual costumo encobrir meus olhos castanhos. É assim que me vejo em uma foto na minha escrivaninha.., bem ao lado da foto da minha mãe... uma foto um pouco amarelada, pelo tempo e pela falta de tecnologia daquela época... Minha mãe, Melissa, segurando um bebê e estampando um belo sorriso no rosto...
     Eu acordei nessa manha decidido a mudar meu modo na escola.
     Mas a culpa não foi minha se o professor de matemática, Sr. Madrik, passou um teste logo no primeiro período.
     A culpa pode ter sido minha do professor ter me dispensado após dez minutos, por ter completado o teste e ter tirado nota máxima...
     E a culpa com certeza foi minha por ter deixado a sala com um semblante de tédio, o que só me fez ser um pouco mais odiado pelos populares do fundão.
     Então estou aqui sentado em 'minha' mesa do pátio - a mesa onde não existe muita gente afim de se sentar e onde ficamos, eu e alguns amigos - escrevendo isso no diário.
     A Alameda High School é, como o nome já diz, localizada em uma rua onde existem muitas árvores, e para não sair do clima, o pátio também as possui. O prédio é grande em extensão, e com dois andares de salas. A fachada pintada de um vermelho não muito forte contrasta com as folhas desse outono. Estamos em meados novembro, o que é o primeiro período de avaliação do ano letivo... o qual pode ser o meu último nessa escola.''
     – E você pretende ir pra onde? - Essa pergunta saiu do nada. Me virei e vi, em pé atrás de mim, Alysis, minha grande amiga. - Se contente com um dez em matemática e com uma mesa no pátio, garoto. - disse ela rindo.
     – Você me assustou. - disse enquanto ela se sentava ao meu lado. - Nada contra essa mesa...mas você pretende ficar nela pro resto da sua vida?
     Ela ficou olhando para longe, pensando. O vento batia em seu rosto e seu longo cabelo vermelho era soprado para trás. Seus olhos tomaram um tom profundo de azul, pareceu me trasportar para o litoral, em cima de uma rocha, a água batendo na costa e o vento forte.
     Então ela voltou a si, e eu também voltei. Havia algo no passado dela, algo sombrio que ela nunca me revelou, e era assim que ela ficava quando era questionada sobre algo de sua vida.
     – Não tenho certeza do que fazer. - Ela disse se virando para mim, com um sorriso leve. - Mas acho que vai ser um pouco longe dessa mesa.
     Ela tinha senso de humor. Quando não estava longe. Ela era um pouco louca, e inteligente.
     – Acho muito estranho você ter um diário. - Ela continuou. - Seria mais normal eu ter um diário, e eu não tenho um.
     – Ah, eu não tenho certeza disso. Aposto que você tem um sim. - Eu disse. Poderia falar: Eu não tenho minha mãe pra contar minhas coisas, igual você tem. Mas não uso isso como desculpa, e também porque ela nunca fala do pai dela.
     Guardei meu diário, antes que ela quisesse ler o que já tinha escrito antes e eu teria que negar, ou ela iria arrancar ele das minhas mãos e ler do mesmo jeito.
     Josh, meu outro amigo, provavelmente demoraria um pouco pra sair. Não que ele fosse burro, mas ele tinha preguiça de ser inteligente. Ele faria a prova calmamente e sairia de lá com uma nota, no mínimo, boa.
     Eis que surgem, saindo do corredor F, onde fica a sala de matemática, os herdeiros das vagas de popular. No ano passado eles não eram tão idiotas assim. Mas agora no último ano, eles não têm nenhum tipo de concorrência para esta vaga.
     Angela, Karine, Rony e Dorian. Um império construído na beleza e na brutalidade. Mais na brutalidade, mas o medo era grande o bastante para impedir alguém de dizer isso.
     Eles iam querer me punir pelo teste, mas não seria agora. Não há vantagem em bater em alguém sem ter uma platéia para dar continuidade nos boatos, e espalhar o medo mais ainda. Eles seguiram, me encarraram um pouco. Eu finge que não vi e continuei a conversar.
     – Você está duvidando de mim? - Ela tinha falando, em um tom sínico de mágoa.
     – Não vou duvidar de você. Se você diz que não tem um, tudo bem.
     – E... a verdade é que eu ainda não tenho um. - Ela me respondeu e levantou uma mão da bolsa, com um pequeno caderno de capa vermelha. - Mais de agora em diante eu terei um também.
     Isso nos provocou risos. Eu a conheço desde que cheguei aqui. Nos trombamos na biblioteca, e ainda hoje ela me culpa por ter derrubado seus exemplares favoritos. Em meio a tantos livros ela levou um meu e, por sorte minha, ela me devolveu. Depois de tê-lo lido, claro, e assim acabamos nos tornado amigos. Ela também não é de Meridian, havia se mudado para cá um ano antes que eu.
     Neste momento eu ouvi algo longe. Mas que despertou algo já esquecido em minha mente. O som foi se aproximando e pude ver algumas pessoas andando pela rua, pouco a frente da escola, e colocando cartazes que anunciava a chegada do circo nas próximas semanas. Havia quatro anos que eu não ouvia nem falar em circos... E no mínimo uns cinco anos que não ia em nenhum. Assim, minha mente vagou por um período nebuloso...

5 comentários: